(Continuação…)

Comecei lentamente como era suposto: 5’30. Nem muito confortável (5’45) nem muito rápido (5’15). Não ia para tempos e muito menos para me esgotar nos primeiros kms. O máximo que já tinha corrido em treino eram 33km e não acabei bem… A partir daí tudo seria uma incógnita e por isso poupar o corpo e a mente era fundamental.

ATÉ À MEIA MARATONA

Ainda não eram 09 da manhã e o sol já brilhava, o ambiente estava bom e as pessoas animadas na rua já gritavam e cantavam pelos corredores.

Logo no primeiro km deixei de ver a Inês, ela arrancou no seu ritmo confortável e eu, sem grandes preocupações, mantive o meu. “Nada de entusiasmos nos primeiros kms” lembrava as palavras do meu querido treinador enquanto percorria aquela primeira avenida larga em direção à praia. Ao km5 olhei para o relógio e ia acima do ritmo combinado, calmaria nesta hora que ainda temos 37kms pela frente, pensei eu… bebi meia água no primeiro abastecimento e entornei o resto nas pernas, comi uma goma energética – que uma querida amiga corredora, a Mariana me deu dias antes de partir para esta aventura – e ao km7 pus o primeiro gel, não por fraqueza mas por sentir que ia precisar de manter a minha energia. Os géis devem ser tomados quando ainda estamos bem e não quando as reservas já se esgotaram porque aí pouco há a fazer: então assim foi.

Aquelas avenidas largas sem fim a vista não são o mais entusiasmaste mas eu ia focada no meu ritmo e na minha música. Entretanto, passou por mim uma portuguesa, a Marga, que também fazia a maratona. Tirou-me esta linda fotografia e ainda tiramos uma selfie meias sorridentes, bem eu a medo confesso… que nem coragem tive para mexer no telefone em todo o percurso mas sempre ficou um momento para recordar. Na verdade a única fotografia que tenho desta prova. 😅
A caminho dos 10km andei sempre entre os 5’21 e os 5’27 mas a saber que não podia descer muito daquele ritmo. Passei aos 10km com 54’ e sentia-me bem. Era assim que tinha de ir até a meia maratona e assim foi… ao km 12 comi uma goma e ao km16 meti outro gel. Mais uma água para refrescar a boca do gel e molhar a cabeça. Já estava a aquecer…

Nessa altura já tinha reparado que tinha perdido uns dos meus géis favoritos – caramelo salgado da GU. Fiquei tão triste mas nada a fazer. Ainda bem que levei a mais… acabei por tomar uns da gold nutrition mas como são mais líquidos deram-me alguma azia. Nesta fase só pensava, aguenta-te até a meia maratona que depois logo vês. 🙌🏽

A VISITA TÃO ESPERADA

Sabia que ia ver os meus pais ao km27 e a expectativa era muita. Pensava sempre que tinha de chegar lá bem, custasse o que custasse. Eles tinham ido para me ver e apoiar e isso significava muito para mim. Embora não tenha faltado nenhum abastecimento comecei a sentir-me quebrada ao km25 que é onde a prova tem uma ligeira subida, nada demais mas faz diferença numa prova totalmente plana até então.

Até ver os meus pais lá me aguentei. Houve ali uma altura que o abastecimento faltou, estava muito calor, a avenida era sempre ao sol e tudo o que eu desejava era uma água. Graças a Deus no meio da multidão que apoiava uma sra tinha uma água e deu-me. Sorri, agradeci e pensei que era literalmente um milagre.


Quando queremos muito uma coisa, todo o universo conspira para que consigamos realizá-lo.
Paulo Coelho

E esse é mesmo um dos meus lemas de vida. ✨
Ao km27 e lá estavam os meus pais a gritar: “MAGGY MAGGY MAGGY” e claro vi-os logo. Os nossos olhares cruzaram e tentaram correr perto de mim. “Estás bem? Como é que te sentes?Temos água aqui.” Fiquei tão contente de os ver que o meu peito apertou, quase como se ficasse sem ar. Continuei a correr feliz porque sabia que os ia ver quando desse a volta para trás. Para eles era só atravessar a ponte, para mim era correr mais um km até regressar pela avenida paralela e lá estavam eles ao km 29. Acho que aí tomei outro gel mas confesso que já não me lembro bem. A minha mãe diz que lhe perguntei: “estou quase lá, não estou?” 😓 claramente já não estava muito bem…

A QUEBRA

Lembro-me que cerca do km32 vi uma placa que diz: “não deixes o muro vencer-te. Quebra-o”. Aí já se vê menos gente, já há malta a desistir e outros começam a andar. Realmente o muro que os corredores tanto falam é real. É quando o corpo gasta todas as suas reservas energéticas e simplesmente se apaga. Graças a Deus não tive essa sensação física mas de certa forma, mentalmente quebrei. A força mental começa a deixar-me mal. Sinto-me cansada e coloco outro gel aos 33 mas eu sabia que não havia gel que resolvesse isto. Não eram pernas, era cabeça. 🤷🏽‍♀️ Agora vejo isto, na altura confesso que não vi…

Do km 33 ao km37 fui entre andar e correr, chorar e ganhar coragem para voltar a correr mas as pernas tremiam, o corpo estava quente e a cabeça não queria responder. Olhar para o relógio e ver ritmos de 7/8min é só triste. Só pensava: preparei-me tanto para isto e não vou conseguir. Mas lá está: na alegria conhecemo-nos, no sofrimento reconhecemo-nos.

Correr uma prova destas é acreditar até ao final que vamos chegar à meta mesmo que seja a rastejar. E eu sabia que tinha de meter isto na cabeça. Desistir não era uma opção… ao km38 fiquei sem bateria nos phones e pensei para mim: NÃO, eu não vim para aqui para isto! Sabem aquela força interior que vos leva? Que vos pega ao colo? Que vos enche o peito de ar e diz “VAI!”?

Voltei a correr, olhem em frente e jurei a mim mesma que só parava na meta. Fazia km a km, dizia: só mais um, só mais um, só mais este, só até ali… e assim fui. Cada vez mais gente na rua, mais gritos, mais música. Ao km39 oiço os meus pais e penso que tomei a decisão certa em voltar a correr, só tenho tempo de olhar para trás e mandar um beijinho – tenho este momento gravado em vídeo.

Nunca vou esquecer. Eu prometi a mim mesma que só parava naquela meta azul rodeada de água de medalha ao peito por isso BORA!
Km38 – 05:35

km39 – 05:34

km40 – 05:33

km41 – 05:17

km42 – 05:14.

Nos últimos dois kms só me lembro de ultrapassar pessoas, tinha asas nos pés, o meu corpo empurrava-me para a frente e eu só queria chegar a meta. Não tinha música mas nem pensava nisso. Só ouvia e absorvia tudo, vibrava com a multidão à volta. Eram centenas de pessoas. Comecei a tirar o telefone, queria filmar a minha chegada… 700m, 500m, 400m, 100m e CHEGUEI!!!!!!!! F****, cheguei a meta!!!!!!

💜